terça-feira, 6 de setembro de 2016

Determinação.

Hoje me deu vontade de escrever.

 Como quem elabora um projeto com suas lágrimas ou como quem metaboliza um plano com seu próprio sangue, escrevo como quem desnuda a alma com sua própria carne. Não há, no entanto, nenhum propósito: não há um floreio literário, uma técnica romântica ou uma descrição fantástica. Escrevo para matar o desejo que me consome por dentro, que amarga o coração, que inquieta os pés, que esfria meu suor. Escrevo, pura e simplesmente, pelo meu próprio prazer de escrever.

 Escrevo como quem não consegue calar-se de si mesmo. Cheio de si, escrevo para esvaziar-me um pouco de mim mesmo. Escrevo com a determinação cética que escrever liberta. Mas escrevo como quem constrói sua própria prisão, palavra por palavra, na cela do vazio objetivo do que escrevo.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Nade sozinho

A vida é como uma piscina.

Quando te jogam para dentro dela, muitas vezes você está usando bóias nos seus braços gordinhos, na sua cintura rechonchuda e sempre tem alguém por perto.

Até que um dia tiram sua bóia da cintura e você percebe que para respirar vai ter que bater as perninhas. Mas tudo bem, porque você não está sozinho. E então tiram sua boias dos bracinhos e você percebe que se não coordenar os membros pode muito bem se afogar no meio de tanta água. Mas tudo, você não está sozinho.

Até que você olha para aquela imensidão azul, aquele corpo de água tão maior que vocês, prestes a te engolir e você pensa "tudo bem, você não está sozinho".

Mas, então, como um raio que cai, como um flash que estala, você percebe que você sempre esteve sozinho. Apavorado, tudo mudou. Menos a piscina.

A vida continua.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Apátrida

Eu gostaria de escrever sobre a sensação de não pertencer, mas escrevo e apago as palavras como se não pertencer fosse muito difícil de admitir.

Os parágrafos surgem, mas logo se vão. Eles não pertencem. 
Os pensamentos nascem, mas logo morrem. Eles não pertencem.
As palavras são escritas, mas logo se apagam. Elas não pertencem.


Eu existo, mas logo me calo. Eu também não pertenço.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Sobre crianças.

        Ontem, uma menina me falou "escreve você!". Perguntei o porquê, e me disse que a minha letra era mais bonita.
        Me impressionei - mais bonita? Minha letra de moça mais velha, moça agitada, letra fina, corrida, sem muitos desenhos. Uma Letra sem planejamento, letra stressada, letrada grande e fina.
        Pensei "Como pode?". Eu gostava mesmo da letra dela. Inocente, redonda, cheia de  desenhos, feita devagar, com esmero. Letra de crianças sem preocupação, que não sabe muito bem como faz - mas faz - do jeito que pode. Com coragem, sem medo de errar.
        - A sua que é bonita, faz do seu jeito.
        Inspirada, fez. Começou imitando o meu jeito, mas logo o "o" que parece um "a" se transformou numa bola inocente, com voltinhas infantis.
        Que vontade de dizer para ela admirar o que ela faz, admirar o jeito que faz, se aceitar do jeito que é. Não se apressar e aproveitar o tempo que vive, o tempo que tem para desenhar letrinhas e que em breve vai passar. E continuar sendo assim, criança.
       

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O museu

Por que o museu é muito mais do que uma visita ao passado, é também uma queda livre no presente. É dar de cara com o fato de que somos vitimas e algozes de nosso próprio tempo, e que tudo o que construirmos estará  um dia em um museu (se dermos sorte de fazer algo bom o suficiente para isso)

sábado, 26 de maio de 2012